A Segurança Social desenrascou seis
pensões, no Porto, para a primeira pernoita dos 47 elementos da
comunidade de etnia cigana que a Câmara desalojou, anteontem, das
barracas - entretanto demolidas - na Rua do Bacelo, freguesia de
Campanhã. Mas a maioria não aceitou dormir nas instalações, alegando
piores condições do que aquelas que terão motivado o despejo.
"Deram-nos uma cama para cinco pessoas. Os colchões cheiram a urina e
estão queimados com cigarros", relata Maria do Céu, 25 anos. "Quando
chegámos, a pensão já estava fechada. As crianças ficaram sem comer. E
eu dormi enrolada nesta manta - uma manta azul de felpo -, que sempre é
melhor do que os cobertores que encontrei", acrescenta Gracinda dos
Anjos, 42 anos e três filhos. O mais velho nem sequer aceitou ficar
ali. "Não aguentou o mau cheiro e foi dormir para a carrinha".
O descontentamento originou uma reunião ao fim da tarde de ontem, na
Junta de Freguesia de Campanhã, com a comunidade, o director regional e
os técnicos da Segurança Social e o autarca Fernando Amaral, que
reconheceu "haver, de facto, pensões com condições menos dignas, devido
à urgência que houve em encontrá-las". O director da Segurança Social
admitiu desconhecer que a demolição seria realizada anteontem. Pelo
menos, uma das seis unidades inicialmente escolhidas ficou excluída do
plano temporário de alojamento. Mas as pessoas foram avisadas de que se
não aceitassem ficar nas pensões, perderiam, findo o prazo de 60 dias,
o direito de poder vir a ser instaladas em habitações sociais.
"Hoje [ontem] vamos ser mandados para uma pensão melhor, com mais
condições e onde estão mais familiares nossos", afirmou Vera Augusto,
porta-voz do grupo. Disse estar "mais contente", mas não vai desistir
da alternativa defendida e preferida por todos aguardar o realojamento
definitivo num terreno e não em pensões. "A assistente social disse que
iria ajudar-nos a escrever uma proposta para enviarmos ao presidente da
Câmara do Porto."
O terreno já foi localizado pertence a uma cooperativa, tem água
quente, electricidade e balneários. "Podemos cozinhar em vez de comer
duas sandes num café, lavar a roupa e escusamos de andar a vadiar o dia
inteiro. A pensão, para nós, é como uma prisão. Não temos sequer com
quem conversar; só as paredes", desespera Florinda Machado, 48 anos. No
entanto, a Autarquia, em correspondência previamente trocada com a
Segurança Social, já garantiu não estar disponível para aceitar essa
sugestão, afirmou Fernando Amaral. E a própria Segurança Social não
está autorizada a patrocinar mais do que uma refeição por dia. "Existe
um tecto, mais ou menos flexível, de quatro euros. Se o proprietário do
restaurante onde irão ser feitas as refeições aceitar descer o preço,
talvez seja possível contractualizar o almoço e o jantar".
De resto, acrescentou, a reunião serviu sobretudo para resolver
problemas práticos as crianças serão conduzidas à escola num transporte
da Segurança Social; a roupa da lavandaria será recolhida e entregue
por uma cooperativa comunitária; as famílias serão agregadas de forma
tão próxima quanto possível.
Anteontem, apenas uma pessoa dormiu na pensão Sul Africana, duas na
Santo António, e 12 na Santa Eulália. Se a Autarquia insistir em não
aceitar a transferência da comunidade para o terreno, Vera Augusto
garante "que irão permanecer nas pensões". No meio do processo, um dos
elementos da comunidade, com problemas mentais, desapareceu. "Há dois
dias que ninguém sabe nada dele", afirmou Gracinda dos Anjos.